Um hormônio que o corpo produz quando você fica horas sem comer
Depois de várias horas sem se alimentar, o pâncreas libera um hormônio chamado glucagon. Durante décadas, ele foi tratado como coadjuvante do metabolismo, o “oposto” da insulina. Hoje, pesquisadores investigam o que acontece quando ele passa a fazer parte de um tratamento: o glucagon aumenta o gasto de energia e favorece a queima de gordura no fígado.
Foi essa ideia que deu origem à retatrutide, molécula experimental que atua em três receptores ao mesmo tempo: GIP, GLP-1 e glucagon. A pergunta que move este texto não é “quanto peso ela faz perder”, e sim outra, mais interessante para quem cuida do cérebro: o que muda no organismo além da balança e isso importa para a saúde neurológica?
Primeiro, um esclarecimento importante
A retatrutide não é um medicamento aprovado para uso clínico no Brasil nem em outros países. Tudo o que se sabe vem de estudos clínicos em andamento ou recém-concluídos. Este texto tem finalidade exclusivamente educativa e não é indicação de tratamento. Produtos vendidos como “retatrutida” fora de estudos científicos não têm garantia de origem, dose ou pureza, e representam risco real à saúde.
O que os estudos mostraram além do peso
Glicemia e pressão arterial. No estudo de fase 2 em obesidade, 72% dos participantes com pré-diabetes voltaram à glicemia normal em 48 semanas, contra 22% no grupo placebo. Em parte dos participantes tratados, a melhora da pressão arterial permitiu suspender ao menos um anti-hipertensivo. Em pessoas com diabetes tipo 2, o estudo de fase 3 TRANSCEND-T2D-1 mostrou controle glicêmico consistente.
Gordura no fígado. Em um estudo de fase 2a, a redução relativa da gordura hepática chegou a 82,4% na maior dose após 24 semanas, e 86% dos participantes nessa dose atingiram conteúdo de gordura considerado normal (abaixo de 5%). Nenhum participante do grupo placebo chegou a esse nível.
Colesterol e inflamação. Foram observadas quedas de triglicerídeos, colesterol não-HDL e apolipoproteína B, além de redução de marcadores inflamatórios como a proteína C reativa (55%) e a interleucina-6 (30%).
Esses são desfechos intermediários (biomarcadores). Eles indicam que o perfil de risco melhora, mas não demonstram, por si só, que haverá menos infartos ou AVCs. Estudos de desfechos cardiovasculares com a retatrutida ainda estão em andamento.
E o cérebro nisso tudo?
Aqui a curiosidade encontra a cautela. Vamos por partes.
AVC isquêmico
Hipertensão, diabetes, dislipidemia, obesidade e inflamação crônica são fatores de risco bem estabelecidos para o AVC. Como a retatrutide atua em vários deles ao mesmo tempo, é plausível que o risco caia. Mas “plausível” não é “comprovado”: com a retatrutida ainda não existem dados de redução de AVC. Vale lembrar que, com outros medicamentos da mesma família (agonistas do GLP-1), grandes estudos já mostraram redução de eventos cardiovasculares em grupos selecionados de pacientes.
Doenças neurodegenerativas
A resistência à insulina e a inflamação de baixo grau são hipóteses estudadas na relação entre saúde metabólica e declínio cognitivo. Isso despertou grande interesse em estudar os agonistas do GLP-1 na doença de Alzheimer e na doença de Parkinson. Os resultados até agora são heterogêneos, e grandes estudos com semaglutida em Alzheimer inicial não demonstraram desaceleração da doença. Para a retatrutida, não há estudos nesse campo. O que existe é uma pergunta científica legítima, ainda sem resposta.
Trombose venosa cerebral
A obesidade é um fator de risco reconhecido para trombose venosa cerebral, sobretudo quando se soma a outros fatores, como o uso de estrogênios em mulheres. Reduzir o excesso de peso é uma medida que faz sentido na prevenção, mas não existem estudos avaliando a retatrutida para esse fim.
Hipertensão intracraniana idiopática
É a condição em que a pressão dentro do crânio aumenta sem causa aparente, provocando dor de cabeça e risco para a visão. Ela atinge com maior frequência mulheres jovens com obesidade, e a perda de peso é uma das bases do tratamento. Um estudo de menor porte com um agonista do GLP-1 (exenatida) mostrou redução da pressão intracraniana, o que abriu uma linha de pesquisa. Com a retatrutida, ainda não há evidência nessa condição.
Segurança e limites
Os eventos adversos observados nos estudos foram, em sua maioria, gastrointestinais (náuseas, diarreia, vômitos) de intensidade leve a moderada, ligados ao aumento gradual da dose, sem hipoglicemia grave. Ainda assim, os dados de longo prazo são limitados, e o perfil de segurança só será completamente conhecido após os estudos de fase 3 e a análise das agências reguladoras.
O que levar deste texto
- A retatrutida é experimental e seus benefícios metabólicos vêm de estudos clínicos, não de prática clínica estabelecida.
- A melhora de pressão, glicemia, gordura hepática, lipídios e inflamação é cientificamente interessante para a prevenção vascular.
- A relação com AVC, doenças neurodegenerativas, trombose venosa cerebral e hipertensão intracraniana idiopática é, por ora, uma hipótese a ser testada.
- O cuidado comprovado hoje continua o mesmo: controle da pressão, da glicemia e do colesterol, atividade física, sono, alimentação adequada e acompanhamento médico regular.
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Dr. Fábio Pontes, CRM-DF 23978 RQE 14898
Referências
- Jastreboff AM, et al. Triple–Hormone-Receptor Agonist Retatrutide for Obesity: A Phase 2 Trial. N Engl J Med. 2023.
- Bajaj HS, et al. Retatrutide in type 2 diabetes (TRANSCEND-T2D-1): phase 3 trial. Lancet. 2026.
- Sanyal AJ, et al. Retatrutide for MASLD: a randomized phase 2a trial. Nat Med. 2024.
- Ruotolo G, et al. Retatrutide-associated improvements in cardiovascular risk biomarkers. Diabetes Obes Metab. 2026.
- Rosenstock J, et al. Retatrutide in type 2 diabetes: phase 2 trial. Lancet. 2023.
- Pearson MJ, et al. Retatrutide and lipid and metabolite profiles. J Clin Endocrinol Metab. 2026.


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